Yayoi Kusama, a icônica artista japonesa que alcançou o status de superestrela global já na maturidade, faleceu aos 97 anos. Entre as décadas de 1950 e 2020, a criadora foi responsável por conceber obras monumentais marcadas por padrões de bolinhas, instalações psicodélicas imersivas e as famosas salas de espelhos infinitos, que cativaram o público ao redor do planeta.
Em nota oficial que comunicou o seu falecimento, foi destacado que, ao longo de uma trajetória singular dedicada à produção artística, Kusama consolidou uma carreira de reconhecimento internacional como uma pioneira da vanguarda. Sua prática criativa foi vasta, transitando pelas artes visuais, performance, literatura e poesia. O comunicado ressaltou ainda que ela manteve o hábito de pintar até seus últimos dias, sem abandonar o pincel e seguindo na busca pela representação do amor e da alma eternos.
A organização responsável por sua obra afirmou que pretende honrar os desejos da artista, utilizando a arte como um meio para transmitir força e esperança para o futuro das pessoas em todo o mundo. Nascida em 1929, na cidade de Matsumoto, no Japão, Kusama enfrentou uma infância marcada por dificuldades e episódios de alucinações, elementos que ela transformou em matéria-prima para o seu trabalho artístico.
Rejeitando as convenções conservadoras e o destino de um casamento arranjado, Kusama decidiu partir do Japão em 1958 com destino a Nova Iorque. Na metrópole americana, ela desafiou a cena artística majoritariamente masculina com suas pinturas de infinity nets e suas esculturas fálicas. Sua influência atingiu grandes nomes, como Andy Warhol, embora ela tenha manifestado frustração ao notar que suas ideias eram frequentemente apropriadas por artistas homens que desfrutavam de maior prestígio no mercado de galerias.
Após retornar ao Japão, a artista tomou a decisão, em 1977, de se internar voluntariamente em uma instituição psiquiátrica, local onde estabeleceu sua residência e ateliê pelo restante de sua vida. Ao longo das décadas, ela promoveu eventos como body festivals e happenings, além de criar esculturas macias e realizar intervenções artísticas que desafiavam o sistema e geravam intensos debates.
Entre suas ações mais controversas, destaca-se a carta enviada ao então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, na qual propunha dormir com ele caso a Guerra do Vietnã fosse encerrada. Na Bienal de Veneza de 1966, apresentou o Narcissus Garden, vendendo esferas espelhadas sob o slogan “seu narcisismo à venda”. Além disso, organizou o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo em Nova Iorque, em 1968, e realizou um protesto simbólico lavando uma bandeira soviética diante da sede da ONU.
Embora tenha sido amplamente ignorada por longos períodos, Kusama experimentou um renascimento e uma fama estrondosa na fase final de sua vida. Suas criações passaram a ocupar os principais museus do mundo e ela firmou parcerias de grande visibilidade com marcas de luxo, como a Louis Vuitton. A artista quebrou recordes de vendas em leilões para mulheres vivas e, em 2016, recebeu a Ordem da Cultura, a mais alta honraria concedida pelo governo japonês a personalidades das artes.
O mundo da arte se despede de uma figura que transformou sua própria dor em uma estética universalmente reconhecida. Yayoi Kusama deixa um legado de 1929 a 2026, marcado pela persistência e pela capacidade de reinventar a percepção visual do espectador.
Fonte: pt.euronews.com


