segunda-feira, 14/09/2026
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O transplante capilar não deve ser tratado como uma commodity

Nos últimos 11 anos, o Brasil registrou um aumento expressivo na procura por procedimentos de transplante capilar. Como profissional da área, observo esse fenômeno com sentimentos ambivalentes. Por um lado, é positivo notar a superação de um antigo tabu, que levava muitos homens a conviverem com a calvície em silêncio ou a buscarem ajuda apenas quando o quadro já estava avançado. Por outro, essa popularização acelerada trouxe consigo um efeito colateral preocupante: a mercantilização do procedimento.

Atualmente, o transplante capilar tem sido tratado por muitos como uma commodity, um item de prateleira que o paciente escolhe comparando preços e o número de folículos prometidos, de forma semelhante à compra de passagens aéreas. O grande equívoco dessa comparação reside na falsa premissa de que se está avaliando produtos idênticos. Embora o nome da cirurgia seja o mesmo, a realidade dentro da sala de operação e o acompanhamento posterior variam drasticamente entre diferentes clínicas.

Não se trata de ignorar o fator financeiro, pois o preço é um elemento legítimo na decisão. No entanto, é preciso compreender que valores muito abaixo da média de mercado exigem uma explicação. Uma cirurgia segura envolve uma estrutura complexa: médico responsável, equipe treinada, equipamentos de ponta, rigorosa esterilização, medicamentos e um planejamento pós-operatório cuidadoso. Quando o custo destoa excessivamente, o paciente deve questionar onde a economia está sendo feita.

A existência de uma equipe multidisciplinar é fundamental e necessária em qualquer intervenção capilar. O problema surge quando ocorre a transferência indevida de atos médicos ou quando o paciente acredita estar sendo operado por um profissional específico, mas descobre que partes cruciais do procedimento foram executadas sem a devida supervisão médica. Essa fragilidade operacional já reflete nos consultórios.

Dados do Censo de Transplante Capilar 2023, realizado pela ABCRC, revelam que cerca de 12% dos médicos associados à entidade já atenderam pacientes que buscavam reparação de procedimentos mal executados por profissionais sem habilitação ou em clínicas clandestinas. São indivíduos que, ao tentarem economizar inicialmente, acabam arcando com custos maiores e, por vezes, com danos irreversíveis.

É importante ressaltar que uma extração excessiva ou mal planejada pode causar rarefação visível e, o que é mais grave, comprometer a área doadora, inviabilizando uma segunda cirurgia caso a calvície progrida. O sucesso do transplante não reside em retirar o maior número possível de folículos, mas em utilizar a quantidade adequada, no local correto, respeitando a anatomia individual de cada paciente.

Cada pessoa possui um formato de rosto, idade e padrão de calvície únicos. Quando a busca por volume e velocidade se sobrepõe ao planejamento individualizado, o resultado final é prejudicado. Além disso, a quantidade de folículos extraídos não garante, por si só, que todos crescerão com qualidade.

Para quem está avaliando a cirurgia com uma planilha de preços em mãos, a sugestão é mudar o foco da investigação. Em vez de perguntar onde é possível encontrar o valor mais baixo, o paciente deve se questionar: em quem eu confio para realizar uma intervenção que alterará minha imagem e gerenciará uma área doadora que não pode ser recuperada? A resposta a essa pergunta define a diferença entre um resultado duradouro e um arrependimento permanente.

Por André Duailibi, médico especializado em restauração capilar.

Fonte: midianews.com.br

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