A crise da dívida pública francesa deixou de ser uma preocupação distante para se tornar um desafio central na zona do euro. Durante anos, o mercado financeiro tratou os títulos franceses com a mesma segurança dos alemães, mas essa percepção mudou drasticamente. Recentemente, os investidores passaram a exigir retornos de até 5% ao ano para financiar o Estado francês em um prazo de dez anos, patamar não visto desde 2002.
O prêmio de risco exigido para deter dívida da França, em comparação com a alemã, atingiu o nível mais elevado desde a crise da zona euro entre 2011 e 2012. Atualmente, o país paga taxas superiores às da Itália e da Grécia, nações que foram epicentros de turbulências financeiras passadas. Esse cenário impacta diretamente o crédito à habitação, empréstimos corporativos e o peso dos juros sobre os contribuintes.
Entenda a crise da dívida pública francesa
O problema estrutural reside no descompasso entre receitas e despesas. O governo francês gasta sistematicamente mais do que arrecada, com a previsão de que o déficit atinja 5,4% do PIB em 2026, superando o limite de 3% estabelecido pelas normas europeias. Consequentemente, a dívida pública alcançou 3,6 trilhões de euros no segundo trimestre de 2026, o equivalente a 119% do PIB nacional.
Para tentar reverter esse quadro, o governo minoritário do primeiro-ministro Sébastien Lecornu apresentou um esboço orçamentário para 2027. O plano prevê 54 bilhões de euros em ajustes, focados em cortes de gastos e aumento de receitas. As principais medidas incluem:
- Cortes de 6 bilhões de euros nas áreas de saúde e previdência;
- Congelamento nominal das despesas estatais, exceto juros e defesa;
- Meta de reduzir o déficit para 5% do PIB no próximo ano.
Contudo, o plano gerou ceticismo entre investidores e analistas. A fragilidade política de Lecornu, que não possui maioria no Parlamento, coloca em xeque a aprovação das medidas. Além disso, o histórico recente de metas orçamentárias descumpridas pelo governo francês mina a confiança do mercado. Stéphane Colliac, economista do BNP Paribas, alerta que o país precisará de esforços adicionais significativos apenas para reduzir o déficit de forma marginal.
A pressão sobre o Tesouro francês é crescente, com a previsão de emitir 340 bilhões de euros em dívida em 2027. Especialistas apontam que a velocidade dessa deterioração é o fator mais preocupante, transformando o risco de taxa de juros em um risco de crédito real. A turbulência também afeta o euro, que tem sofrido pressão cambial, e coloca o Banco Central Europeu (BCE) em uma posição delicada.
O BCE possui instrumentos, como o Transmission Protection Instrument, para conter disrupções injustificadas, mas sua aplicação depende de critérios rigorosos de sustentabilidade fiscal. Se o impasse político impedir a aprovação do orçamento, o governo poderá ser forçado a recorrer a leis de emergência, como ocorreu nos dois anos anteriores. Para mais análises sobre o cenário europeu, acompanhe as últimas notícias em nosso portal.
Fonte: pt.euronews.com


