conteúdo fora do perfil — Por muito tempo, avaliar a eficácia digital de uma campanha eleitoral parecia uma tarefa simples. Analisávamos apenas o perfil do candidato, observando métricas como seguidores, alcance, curtidas e o crescimento da audiência. Contudo, hoje, uma parcela significativa da comunicação ocorre fora dos canais controlados diretamente pelas candidaturas. O eleitor encontra o postulante em perfis de jornalistas, veículos de imprensa, grupos de WhatsApp, vídeos de influenciadores ou até mesmo em publicações de adversários.
A eleição do conteúdo fora do perfil
Essa mudança altera profundamente a lógica da comunicação eleitoral. A pergunta central deixou de ser apenas sobre quantas pessoas viram o conteúdo oficial. Agora, é preciso questionar quantas pessoas tiveram contato com o candidato por meio de publicações que não foram feitas por ele. Essa transformação revela como a percepção política é construída atualmente, já que o candidato não é mais o único distribuidor de sua própria mensagem.
Uma pesquisa do Datafolha ilustra bem esse fenômeno. Entre os eleitores que consumiram conteúdo eleitoral nas redes sociais, os dados mostram a diversidade de fontes:
- 75% acessaram perfis de veículos jornalísticos;
- 71% acompanharam por meio de jornalistas;
- 69% viram nos perfis dos próprios candidatos;
- 65% receberam via amigos e familiares;
- 61% foram impactados por influenciadores.
Esses números demonstram que o perfil oficial é apenas uma das portas de entrada. O eleitor não apenas segue o candidato; ele descobre a candidatura por caminhos muitas vezes imprevisíveis. Além disso, as plataformas digitais limitaram a recomendação algorítmica de conteúdos políticos, tornando a circulação orgânica em outros pontos da rede ainda mais vital. Confira mais análises em nossa categoria de política.
Toda candidatura opera hoje com duas comunicações simultâneas. Existe a oficial, que é roteirizada e impulsionada, e a segunda camada, muito mais difícil de controlar: o que os outros dizem sobre o postulante. Isso inclui cortes de entrevistas, memes, comentários de apoiadores ou críticas de opositores. Tudo isso compõe a campanha. Algumas candidaturas investem muito, mas conversam sozinhas, enquanto outras, com menos postagens, geram uma rede de circulação constante.
A fonte da mensagem altera a forma como o eleitor a recebe. Quando o candidato fala de si, trata-se de propaganda; quando um conhecido ou um formador de opinião valida a proposta, ocorre uma transferência de credibilidade. Por isso, apoiadores, lideranças e influenciadores não são apenas meios de alcance, mas mediadores de significado. Eles traduzem a candidatura para diferentes audiências.
Esse cenário exige uma nova estratégia de produção. Em vez de apenas preencher um calendário editorial, as equipes devem se perguntar: por que alguém que não trabalha na campanha compartilharia este conteúdo? O material precisa ter uma ideia compreensível, uma emoção reconhecível ou uma utilidade que justifique o compartilhamento. A campanha deve produzir pensando em como o conteúdo irá viajar pela rede.
Entretanto, existe um risco: ao sair do perfil oficial, a campanha perde o controle sobre o contexto. Um vídeo longo vira um corte de segundos, e uma proposta complexa pode ser reduzida a uma manchete ou meme. Portanto, a disciplina atual exige produzir pensando no recorte. É necessário prever como aquela fala será interpretada, qual será o print ou a manchete gerada a partir dela.
Por fim, os relatórios de desempenho também precisam evoluir. Embora métricas tradicionais sejam importantes, é fundamental observar quantas pessoas produzem conteúdo espontâneo sobre o candidato. O objetivo não é apenas gerar menções, mas construir uma candidatura cuja mensagem circule sem perder seu sentido original. Em 2026, a campanha mais forte pode ser aquela que consegue fazer com que mais pessoas falem por ela, e não apenas aquela que fala com mais gente. Veja as últimas notícias sobre o pleito.
Fonte: rdnews.com.br


