Talvez seja o momento de abordar uma verdade desconfortável sobre uma parcela significativa da direita brasileira: a corrupção, por si só, deixou de ser o único ou o principal problema. Se o combate ao desvio de recursos fosse um princípio absoluto e apartidário, a indignação seria uniforme, independentemente da ideologia do agente envolvido. Contudo, a realidade observada nos últimos anos aponta para uma seletividade preocupante.
Historicamente, escândalos envolvendo o Partido dos Trabalhadores foram instrumentalizados para criar uma associação quase automática entre corrupção e o espectro político da esquerda. Termos como “PT corrupto” ou “esquerda comunista” foram amplamente difundidos. Entretanto, quando irregularidades surgem em campos opostos, essa generalização costuma ser descartada ou minimizada.
O país acompanhou, recentemente, o uso do orçamento secreto, que movimentou bilhões durante uma gestão de direita para atender interesses parlamentares. Somam-se a isso as denúncias de “rachadinhas” em gabinetes de políticos conservadores e casos bilionários, como as fraudes no INSS e o episódio envolvendo o Banco Master, que evidenciam conexões entre poder e dinheiro que atravessam diferentes espectros ideológicos.
É legítimo questionar se a reação pública seria a mesma caso esses escândalos tivessem como protagonistas apenas figuras da esquerda. Essa discrepância na indignação sugere que, para muitos que se autodenominam “homens de bem”, a corrupção serve como um álibi para mascarar uma rejeição profunda ao que a esquerda passou a representar no cenário social brasileiro.
Mas o que, de fato, essa representação significa? Trata-se da ascensão de figuras historicamente marginalizadas: o nordestino pobre e sem diploma na Presidência, negros ocupando cadeiras universitárias e cargos de prestígio, mulheres liderando empresas e tribunais, além da visibilidade de famílias homoafetivas e o respeito exigido por religiões de matriz africana.
O preconceito, raramente admitido de forma direta, encontra na política uma forma de se manifestar. Ninguém se declara abertamente racista, homofóbico ou misógino; em vez disso, utilizam-se justificativas como a oposição às cotas, a defesa de que “cada um faz o que quer, desde que não mostre”, ou a rotulação de mulheres firmes como “histéricas”. O uso do “mas” torna-se a barreira que impede um debate honesto sobre a sociedade.
Não há erro em ser branco, cristão ou conservador. O problema surge quando essa identidade é imposta como o padrão único de normalidade, pelo qual todos os outros devem ser julgados. O diferente só é aceito enquanto permanece em posições subalternas. Quando esses grupos passam a ocupar o centro do poder, o ressentimento se torna evidente.
Nesse contexto, a corrupção funciona como uma ferramenta estratégica. Ela oferece uma justificativa moralmente aceitável para rejeitar transformações sociais sem que o indivíduo precise admitir seus preconceitos reais. Isso explica por que, mesmo cientes de casos de corrupção em seus próprios representantes, muitos eleitores mantêm seu apoio, pois o que está em jogo é a manutenção de uma estrutura social tradicional.
É fundamental ressaltar que nada disso exime a esquerda ou qualquer outro partido de seus erros. A corrupção deve ser combatida com rigor, independentemente da cor da bandeira política. No entanto, quem utiliza a ética como princípio não deveria dosar sua revolta conforme a conveniência partidária.
No fim das contas, para uma parte da direita, especialmente a mais radical, a corrupção é apenas o inimigo que pode ser confessado em público. Os verdadeiros motivos da rejeição — racismo, xenofobia, misoginia e intolerância religiosa — permanecem como fantasmas difíceis de encarar diante do espelho.
Murilo Gonçalves é servidor público e advogado com atuação em direito público.
Fonte: midianews.com.br


