Todos os anos, o mês de setembro reacende o debate público sobre a prevenção do suicídio. Campanhas e especialistas enfatizam a importância do acolhimento e do tratamento em saúde mental. Contudo, essa discussão torna-se incompleta quando ignoramos a relação direta entre o suicídio de mulheres e o contexto de violência doméstica.
Ao analisar a morte de uma mulher que vivia um relacionamento abusivo, a pergunta não deve se limitar a um possível quadro de depressão. Reduzir o óbito a um diagnóstico psicológico é uma imprecisão que apaga a história de violência vivida pela vítima. Dessa forma, o agressor desaparece da narrativa, enquanto a mulher é revitimizada mesmo após a morte.
A complexidade da violência doméstica e o suicídio
A sociedade, muitas vezes, busca culpar a própria mulher pela tragédia, enquanto o autor da violência consegue se reconstruir publicamente como um enlutado. Esse comportamento funciona como um álibi social, permitindo que o padrão abusivo se repita em novas relações. O controle, a humilhação e as ameaças constantes são elementos que compõem um cenário de adoecimento profundo.
Não se trata de negar a existência da depressão, mas de reconhecer que o sofrimento psíquico pode ser o resultado direto de um processo contínuo de abuso. A violência não pode ser retirada da equação ao analisarmos esses casos. Entre os sinais recorrentes de um ambiente abusivo, podemos destacar:
- Perseguição e exposição da intimidade da vítima;
- Chantagem emocional e ameaças envolvendo os filhos;
- Controle excessivo sobre a vida e as escolhas da mulher.
Nesse contexto, o projeto de lei 2493/2026, de autoria da deputada Maria do Rosário, surge como um avanço importante. A proposta busca tipificar a indução, a instigação e o auxílio ao suicídio quando ocorrem no âmbito da violência doméstica, trazendo visibilidade jurídica a uma realidade ainda negligenciada.
Muitas vezes, a mulher não está apenas deprimida; ela está exausta de sobreviver a um ciclo de desqualificação e medo. O desfecho trágico pode se manifestar tanto pelo feminicídio quanto pelo suicídio feminicida. Atualmente, o Estado concentra seus esforços na resposta à violência já instalada, mas falha na prevenção primária.
O poder público precisa assumir um compromisso permanente com a educação da sociedade. É fundamental que os meios de comunicação ajudem a população a identificar os primeiros sinais de abuso. Somente através de uma rede de proteção efetiva será possível romper o ciclo de violência antes que ele termine em tragédias evitáveis.
Portanto, ao nos depararmos com o suicídio de uma mulher, é essencial questionar o que aconteceu anteriormente. A resposta pode revelar uma história que o diagnóstico isolado jamais contaria. A prevenção exige o envolvimento da família, da sociedade civil e do Estado, garantindo caminhos seguros para a interrupção do abuso.
Fonte: rdnews.com.br


