O massacre de detentos com Aids ocorrido na Penitenciária Pascoal Ramos, em Cuiabá, permanece como um capítulo sombrio da história do sistema prisional mato-grossense. Em 21 de abril de 1993, enquanto o país voltava sua atenção para o plebiscito sobre o sistema de governo, a imprensa local noticiava a execução brutal de quatro homens dentro da unidade.
As vítimas, identificadas como Alexandre Gomes Soares, Paulino Caetano dos Santos, Valdir Paelo de Lima Junior e Paulo Souza Ribeiro, foram mortas por outros detentos. O ataque ocorreu logo após o grupo participar de uma palestra educativa sobre cuidados com o HIV, higiene e o enfrentamento ao preconceito.
Além disso, Naquela época, os quatro homens viviam em uma ala isolada dos demais presos devido ao diagnóstico de HIV ou Aids. Essa segregação, embora justificada pelas autoridades como medida de saúde, era fonte constante de reclamações por parte dos detentos, que se sentiam discriminados e privados de atividades básicas, como o banho de sol.
O contexto do massacre de detentos com Aids
O juiz da Vara de Execuções Penais da época, José Geraldo Palmeira, confirmou que os presos frequentemente questionavam o isolamento. Segundo relatos da imprensa, o grupo foi encurralado por cerca de 100 detentos armados com objetos cortantes improvisados. O tenente-coronel Barão afirmou, na ocasião, que as armas foram fabricadas um dia antes, apesar de uma revista minuciosa ter sido realizada nas alas.
Portanto, A investigação policial da época trabalhou com duas hipóteses principais para o crime:
- A condição de saúde das vítimas como motivação direta para o ataque.
- Um suposto pacto de morte articulado entre detentos para reduzir a superlotação da unidade.
A segunda versão ganhou força após denúncias de que uma lista com 40 nomes circulava entre as celas. Três dias após o crime, jornais locais informaram que as vítimas teriam sido escolhidas por sorteio. Para mais informações sobre o sistema prisional, acesse a nossa categoria de notícias.
A repercussão do caso acendeu um alerta em outras unidades prisionais de Mato Grosso, como em Rondonópolis, onde a precariedade e a falta de assistência médica a detentos com doenças graves, como hanseníase e HIV, também foram denunciadas. Relatos da época descreviam situações de extrema vulnerabilidade, com presos vivendo em corredores por falta de celas adequadas.
O uso do termo “aidético” nas manchetes da época, segundo pesquisadores da área de comunicação, reforçava o estigma social contra essas pessoas. O professor Marcos Salese, da UFMT, aponta que a linguagem jornalística daquele período contribuía para a patologização e o isolamento dos indivíduos, associando a doença a grupos específicos e marginalizados.
Essa cobertura midiática, ao reproduzir preconceitos, ajudou a moldar a percepção pública sobre quem vivia com o vírus. Dentro das prisões, o estigma ganhava contornos ainda mais violentos, quase justificando a eliminação física daqueles que já eram vistos como “descartáveis” pela sociedade.
Até hoje, o episódio levanta questões sobre a responsabilidade do Estado na proteção de pessoas sob sua custódia. Nos registros consultados, não foram encontradas informações sobre a responsabilização criminal dos autores das execuções nos meses que se seguiram ao massacre. O caso segue como um lembrete das falhas estruturais e da desumanização que marcaram o sistema prisional brasileiro no início da década de 1990.
Fonte: midianews.com.br


