segunda-feira, 14/09/2026
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Juína: cidade de Mato Grosso abriga diamantes raros que fascinam a comunidade científica

Juína, localizada a 730 km de Cuiabá, consolidou-se como um ponto estratégico para a geologia mundial. Conhecida historicamente pela extração de diamantes, a cidade esconde em seu subsolo evidências de regiões do planeta que permanecem inalcançáveis para a exploração humana direta. Parte das gemas encontradas na região originou-se a centenas de quilômetros de profundidade, no manto terrestre, sendo trazidas à superfície por antigas estruturas vulcânicas denominadas kimberlitos.

O gemólogo e geólogo Daniel Fernandes, graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e especialista na área, destaca que Juína é um dos locais mais relevantes do globo para a pesquisa de diamantes superprofundos. Segundo o especialista, estudos confirmaram que a região abriga estruturas vulcânicas que alcançam profundidades superiores a 400 quilômetros, uma característica singular que torna o município um laboratório natural de valor inestimável para a ciência.

Embora o termo vulcão seja utilizado, cientificamente não se trata de uma cratera convencional, mas de kimberlitos — estruturas formadas pela ascensão rápida de magma. Esses dutos atuaram como verdadeiros elevadores geológicos, transportando rochas e minerais das entranhas da Terra para a superfície. Enquanto a maioria dos diamantes se forma no manto litosférico, entre 140 e 200 quilômetros de profundidade, as pedras de Juína contêm minerais que indicam origens muito mais profundas, ultrapassando a marca dos 400 quilômetros.

A importância científica da região foi reforçada recentemente por um estudo publicado na revista Scientific Reports. Uma equipe liderada pela geóloga Carolina Camarda, da Universidade de Brasília (UnB), em colaboração com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), utilizou a tecnologia do Sirius, no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), para analisar um diamante coletado no Chapadão, em Juína. A pesquisa identificou mais de 100 inclusões minerais, incluindo um oxihidróxido de ferro, evidenciando pressões extremas típicas de profundidades entre 300 e 1.000 quilômetros.

Para o mercado joalheiro, a aparência desses diamantes é frequentemente considerada inferior, pois as inclusões — fragmentos de outros minerais aprisionados durante a formação da gema — retiram a transparência e o brilho desejados. Contudo, para os geólogos, essas impurezas são o aspecto mais valioso. Fernandes compara esses materiais a “grãos de areia” preservados por milhões de anos, que funcionam como cápsulas do tempo, revelando dados sobre a pressão, temperatura e composição química do interior do planeta no momento em que o diamante foi criado.

A exploração comercial em Juína reflete essa dualidade. Estima-se que entre 80% e 85% dos diamantes encontrados na região não possuam qualidade gemológica, sendo destinados à indústria para a fabricação de ferramentas, como lixas e pontas de brocas. A rentabilidade dessas pedras industriais é modesta, servindo muitas vezes apenas para cobrir os custos operacionais da mineração. Apenas cerca de 15% das pedras possuem valor comercial elevado, embora, ocasionalmente, surjam exemplares raros, como os diamantes de coloração rosa, que podem alcançar valores significativos no mercado.

A busca por inclusões relevantes é um processo meticuloso, descrito por Fernandes como um “trabalho de formiguinha”. A descoberta de um diamante não garante uma descoberta científica, sendo necessário encontrar inclusões específicas que permitam estudos detalhados. Desde a década de 1990, pesquisadores de países como Canadá, Rússia e China têm se voltado para as amostras mato-grossenses, que podem ter entre 500 e 600 milhões de anos.

Uma das descobertas mais instigantes envolve a presença de goethita, um mineral hidratado, dentro de um diamante de Juína. A identificação desse componente sugere que minerais podem atuar como veículos de transporte de água da superfície para o manto profundo através do processo de subducção tectônica. Essa hipótese auxilia cientistas a compreenderem o “ciclo profundo da água”, um fenômeno surpreendente, dado que tais regiões atingem temperaturas superiores a 2.000°C, onde minerais hidratados geralmente perdem a estabilidade. Assim, um fragmento microscópico aprisionado em uma pedra de Juína continua a fornecer respostas fundamentais sobre a dinâmica interna da Terra.

Fonte: midianews.com.br

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