Existe uma distorção recorrente no ambiente das campanhas eleitorais: após alguns dias de imersão no processo, candidatos, assessores e estrategistas passam a acreditar, erroneamente, que o eleitor acompanha o pleito com o mesmo nível de dedicação que eles. Para quem compõe o núcleo da campanha, a política é uma ocupação de tempo integral, que envolve monitoramento constante de notícias, redes sociais, pesquisas e o planejamento exaustivo de cada agenda e conteúdo.
O candidato, em particular, vive essa rotina com uma intensidade ainda maior. Cada declaração de um adversário ganha proporções gigantescas, e há uma sensação constante de que todo vídeo publicado já foi visto por toda a população. Surge, então, um sentimento perigoso de que certos temas já foram exauridos. No entanto, a realidade do eleitor é distinta: ele está focado em suas obrigações diárias, como o trabalho, a educação dos filhos, o lazer ou a resolução de problemas financeiros, dedicando apenas frações de tempo ao consumo de informações políticas.
Essa diferença de perspectiva é fundamental para o sucesso da comunicação. Enquanto a equipe está dentro da “bolha” da campanha, o eleitor está fora dela. Esse distanciamento faz com que a equipe superestime a atenção recebida. O que parece uma repetição cansativa para quem produz o material pode ser, na verdade, o primeiro contato do eleitor com aquela mensagem, já que ele pode ter ignorado publicações anteriores ou não ter prestado atenção ao conteúdo.
É preciso distinguir claramente entre publicar uma mensagem e construir uma percepção. Uma campanha pode divulgar uma proposta diversas vezes sem que ela se torne conhecida ou associada ao candidato. A comunicação efetiva não ocorre no momento da fala, mas quando o receptor compreende e retém a informação. O desafio dos profissionais da área é renovar o formato da mensagem sem descaracterizar o conteúdo central, mantendo a consistência necessária para que o eleitor consiga identificar o posicionamento do político.
O preconceito contra a repetição na comunicação política deve ser superado. A pergunta que deve nortear as reuniões de estratégia não é se o assunto já foi abordado, mas se o eleitor já o compreendeu. A disputa eleitoral é, em última análise, uma disputa por memória. Métricas como alcance e visualizações são úteis, mas não garantem que o eleitor associará uma ideia específica à imagem do candidato. O objetivo deve ser sempre a associação, e não apenas a exposição.
Além disso, é um erro imaginar que o eleitor acompanha a narrativa de forma linear, como se assistisse a uma série. Muitas vezes, o cidadão entra no meio do processo, assistindo a um conteúdo isolado. Por isso, cada peça de comunicação deve ter autonomia, reforçando pilares centrais como a identidade, as propostas e os diferenciais do candidato, que devem permear toda a campanha, e não apenas o lançamento.
A repetição estratégica, contudo, exige coerência. Não se trata de repetir temas desconexos, mas de fortalecer uma percepção escolhida previamente. Antes de decidir o que postar, a equipe deve se perguntar qual percepção precisa ser consolidada. Essa mudança de foco transforma a simples produção de conteúdo em uma estratégia deliberada.
Muitas campanhas abandonam ativos importantes cedo demais por causa da ansiedade pela novidade, sentindo-se saturadas com o próprio material. É necessário disciplina para resistir a esse impulso. As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas que inovam na execução, mas mantêm a essência da mensagem. Respeitar a realidade da atenção humana é essencial: em um ambiente saturado de informações, a consistência é a única forma de conquistar um espaço duradouro na memória do eleitor.
Fonte: rdnews.com.br


