terça-feira, 15/09/2026
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A revolução digital no campo: como a tecnologia transforma o agronegócio em Mato Grosso

A produção agrícola em Mato Grosso percorreu um longo caminho desde os tempos em que o sucesso no campo dependia quase exclusivamente de tentativas e erros. Carlos Gilberto Frison, médico e produtor rural em Sorriso, recorda que, ao iniciar suas atividades na década de 1980, o cenário era marcado pela escassez de informações sobre clima, solo e técnicas de manejo. Naquela época, o cultivo era limitado, a infraestrutura era precária e o acesso a insumos exigia longas viagens até a capital, Cuiabá.

Os desafios daquele período refletiam-se diretamente na produtividade, que chegava a ser menos da metade dos índices atuais. A falta de sementes adaptadas às condições regionais era um obstáculo constante. Hoje, mais de quatro décadas depois, o planejamento agrícola é amparado por uma vasta rede de dados, incluindo previsões meteorológicas precisas, imagens de satélite e algoritmos avançados que oferecem suporte muito antes do plantio.

O pesquisador Carlos Antonio da Silva Júnior, professor da Unemat em Sinop, é uma das figuras centrais nessa mudança. Desde 2012, ele trabalha no desenvolvimento de algoritmos capazes de mapear lavouras de soja via satélite. Em 2015, o projeto evoluiu para o SojaMaps, que utiliza técnicas de machine learning e estatística para identificar culturas com uma precisão científica de 98,5%, validada por milhares de pontos amostrais em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Embora a tecnologia forneça dados objetivos sobre a localização e o desenvolvimento das lavouras, o professor ressalta que a interpretação humana permanece indispensável. O sensoriamento remoto identifica anomalias no comportamento das plantas, mas a causa dessas perturbações exige uma análise técnica aprofundada em campo. A tecnologia, portanto, atua como um poderoso aliado na tomada de decisão, mas não substitui o olhar do especialista.

Lucas Beber, presidente da Aprosoja-MT, destaca que a digitalização no campo não é um fenômeno recente, mas uma evolução contínua. Segundo ele, o uso de GPS para balizamento de máquinas e aplicação precisa de insumos, como calcário e defensivos, já é uma realidade há mais de duas décadas. Esse avanço permitiu não apenas reduzir desperdícios, mas também otimizar o calendário agrícola, com o desenvolvimento de variedades precoces que viabilizaram a segunda safra de milho.

A inovação também se tornou um pilar para a sustentabilidade. Ferramentas digitais permitem monitorar áreas de preservação, rastrear a origem da produção e orientar o manejo de forma a reduzir o impacto ambiental. Para Jéssica Gimenes, engenheira agrônoma e idealizadora do Pequi Innovation Hub, o grande desafio atual é tornar essas tecnologias mais acessíveis e amigáveis para a mão de obra das propriedades, promovendo uma qualificação que acompanhe a modernização do setor.

O fortalecimento do ecossistema local de inovação é visto como essencial para esse processo. Estruturas como incubadoras e parques tecnológicos são fundamentais para transformar pesquisas acadêmicas em soluções de mercado. Um exemplo prático dessa integração é a atuação de profissionais como Nathalia Cordeiro Magalhães, que utiliza ferramentas de monitoramento via satélite para auxiliar na regularização ambiental de propriedades, garantindo que o produtor cumpra seus compromissos de regeneração florestal.

A transição da pesquisa para o campo também se reflete em iniciativas como o Centro Tecnológico (Ctecno Parecis), da Aprosoja-MT, que busca soluções para solos arenosos, anteriormente considerados inviáveis. Através de técnicas de rotação de culturas e plantio direto, a pesquisa científica tem transformado áreas de baixa aptidão em terras produtivas e rentáveis a longo prazo.

O próprio professor Carlos Antonio exemplifica essa ponte entre academia e mercado com a fundação da deep tech SpectraX, em 2024, que leva o conhecimento científico diretamente para as demandas do agronegócio. Esse movimento de inovação, segundo Lucas Beber, gera um impacto que ultrapassa as cercas das fazendas, chegando à mesa do consumidor final através da maior oferta de alimentos e da estabilização de preços, consolidando Mato Grosso como um gigante global da produção sustentável.

Fonte: rdnews.com.br

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